Kitler
by LN
Too Much
by LN
too much, too much, too much, too much, too much
much too much, too much, too much, too much
much too much, too much, too much, too much,
too much much
you know james joyce, I like your voice
you know baudelaire, I like your hair
you know churchill, I know kill bill
you know tolstoi, I know playboy
you know politics, I know party chicks
you know wallstreet, I just want to meet
you know common law, I ask my ma
you know sanskrit, come on and say it
you know economy, well I believe in what I see
you know sophie scholl, I love rocknroll
you know algebra, but you wear no bra
do you speak japanese?
you know
too much, too much, too much, too much, too much
much too much, too much, too much, too much
much too much, too much, too much, too much,
too much much
you know so much, so much about everything
all that I know, I know Ive got a song to sing
you know so much, so much about this and that
you know myspace, yourspace, what is the human race?
b-day, d-day, dj, casius clay
batman, spiderman, superman, tarzan
einstein, bernstein, money, money, red wine
eisenhower, beckenbauer, ddr, berliner mauer,
vietnam, guernica, stalingrad, hiroshima,
watergate, waterloo, austerlitz, dien-bien-phu
mao, ho chi minh, valium, amphetamine
you and me and one two three and who could be a refugee?
spam, spam, spam, spam, spam, spam, spam, spam,
spam, spam, spam, spam, spam, spam, spam, spam.
you know
too much, too much, too much, too much, too much
much too much, too much, too much, too much
much too much, too much, too much, too much,
too much too much
its so banana, i really just wanna wanna
its so banana, i really just wanna wanna
its so banana, i really just wanna wanna wanna
its so banana but its true
you know
too much, too much, too much, too much, too much
much too much, too much, too much, too much
much too much, too much, too much, too much,
too much too much
A arte depois da morte
by LN
Olá, adeus.
by Ndrangheta
Uma cassete stereo de 90 minutos, cuja fita só é ouvida até aos 2 minutos e 3 segundos.
Olá, sou o Cliché.
Um chiclete mascado até ao vómito.
Olá, sou a Aparência.
E acabei de fingir que percebo muito de fachadas.
Olá, sou o Pseudo.
E acabei de ir ao dicionário ver como se escreve «pseudo» em tailandês.
Olá, eu sou a Generalização.
E tenho a certeza que os generais são todos uns mauzões.
Olá, eu sou a Simplificação.
E acho que essa balela da complexidade é coisa de gente complicada.
Olá, eu sou a Tolerância.
E até tolero o ser mais intolerável do mundo.
Olá, eu sou o Amor.
E odeio todos os que não amam.
Olá, eu sou o Super-Homem Pró-Vida.
E sei bem o que fazia a esses abortos suicidas e gentalha pró-morte.
Tédio
by LN
And put him in control
Watch him become a god,
Watch peoples heads a'roll
A'roll...
Just like the Pied Piper
Led rats through the streets
We dance like marionettes,
Swaying to the Symphony...
Of Destruction
Acting like a robot,
Its metal brain corrodes
You try to take its pulse,
Before the head explodes
Explodes...
The earth starts to rumble
World powers fall
A'warring for the heavens,
A peaceful man stands tall
Tall...
A (semi)óptica banta do palito
by LN
O Homem Que Não Tira o Palito da Boca, Ed. Caminho - 2009
Texto de Pires Laranjeira
a meia-hora antes de mim
by LN
no dia em que me
com a mão quiseres
prender às ondas
não o faças
nem segredos frios
o mar é só saudade e
juras rasgadas
a caminhar nas águas
que não param de chegar
quando está prestes
a ir
sen ti
contigo
que sentir
nem estar
nesta estranheza
de separar marés
faz da vida
um espelho
toca mais alguém...
com o
dom
de escolher,
às segundas
quem vai ser feliz
não pares já
olham-me.
e tenho mentiras a sair dos olhos
gosto mais
à noite,
de abrir uma conversa mole
para ver se lá nadas
e chamar-te...
sobes
porque ainda
não
te bebi,
ri-mos
aqueço-te as mãos
juras que não me deixas
naquela meia-ora frente ao espelho
antes de te achar
Avatar: o filme de um realizador regular a alimentar expectativas de burgueses
by LN
The Visitor, experiência +
by LN
We Insist!
by LN
Os We Insist! gozam de uma qualidade suprema que não existe, por mais que procurem, no círculo deste tipo de música, que tem como verdadeiro handicap, não raro, a improvisação, o gestualismo matemático inconsequente. A qualidade de que falo é uma apurada sensibilidade estética, que converte o mais elementar princípio exterior ao rock no mais salutar virtuosismo, e faculta, desse modo, ao maremoto natural do aparelho técnico de métricas, escalas, tempos inusuais e arranjos intrincados (próprio de bandas deste género, como os Cheer-Accident, os At The Drive-In, Tool…), a propriedade especial de transformar este sentido caótico cerebral, frio, equacional, em algo de poético, próximo do ouvinte sem nunca deixar de ser viril e inteligente, incrivelmente harmónico, coerente, com uma conectividade semântica extraordinária às boas letras que escrevem. A intenção inesperada, assim se pode definir, é a marca de água. Nota-se uma genuidade no espírito criativo assombrosa, sem medo do abrir mapas, novos nichos, ao longo de cada composição, escrita como uma sinapse neural entre língua e estética. Tudo tem um propósito responsável, num grupo que parece atender à teoria composicional com o máximo cuidado e deleite. Assim, criam canções (e que boas são), longe do cançonetismo tradicional do rock independente que pouco mudou desde os anos 80, mas no limite da pesquisa, como banda enfant terrible, que sempre estará insatisfeita com o que achar – incrível ou menos incrível. E se não estais seguros do que se escreve, basta referir que, de modo muito genérico, os We Insist! (até ao Crude) soam a um choque entre Mudhoney e Morphine. Não só porque alinharam com dois saxofonistas, responsáveis pela aquela agradável assimetria tonal, mas também pelo aspecto anárquico do diálogo sonoro que herdam da atitude indie, o DIY [do-it-yourself].Site Oficial
Myspace
Castração ecoológica à imagem
by LN
Deus é um fumador de havanos
Texto de Maria João Martins
habitar-te
by LN
nadamente
arde em mim
uma figura
talvez
a ti arcada
sem sentido
e não a respeito
de monólogo congelado
assisto
à última letra
que via, há volta
no centro dos aspectos
por avançado
ser
recuo, pontuações
ao sim-sim
da negação
em erro, abito
Subversive Xmas
by Ndrangheta
Activistas ambientalistas que pugnam o ano inteiro por planos eficientes de certificação energética boicotam o Natal.
A tradição é, inevitavel e irreversivelmente, subversível.
Se fosse vivo, Jesus Cristo estaria, provavelmente, do lado dos ambientalistas. «Terá nascido ele para isto?», perguntam algumas «cabeças falantes».
Twist: Afinal, Jesus regressa à terra para duas manifs coladas: Manif Anti-Natalidade e Pró-Greenitude. Diz ele, com os cabelos até aos pés, aos microfones da estação A5: «Em cenário de crise, que tende a agravar-se e a perpetuar-se, devemos pensar bem se é sustentável, hoje e amanhã, ter filhos e se não estamos a matá-los, conscientes do 'no future' nihilista, antes de eles nascerem. Defender a natalidade, nesta conjuntura, é subscrever uma cultura pró-morte. Ora, eu sou pela vida, por uma vida de qualidade, digna, descarbonizada, com futuro... o que não perspectivo para os próximos séculos».
Mais à frente, Jesus Cristo afirma ter-se arrependido de ter nascido, tendo concluído que, nos últimos dois-mil-e-nove-anos, constituiu mais parte do problema do que da solução do mundo. Segundo o-cristo-menos-popular-do-que-os-Beatles, «poucos compreenderam a minha mensagem e muitos deturparam-na, aliás», remata no termo das manifs, que culminaram em dois nascimentos, à luz do dia, em plena Praça da Boa Morte.
Neste mesmo momento, Lou Reed canta um famigerado verso de «Heroin», dos Velvet Underground: «and I feel just like Jesus' Son» .
É Natal, é natal.
É a última vez
by LN
Ink, a vida negra
by LN
«Todos nós temos dois passados, mas a um deles chamamos futuro.» - Afonso Cruz
Girls just wanna have fun
by LN
Deviam ler também
by LN
«Quando, no inicio dos anos 1980, Habermas afirma que a modernidade é um projecto inacabado, renova a sua confiança numa razão então acusada de ter torneado possível a barbárie totalitária. No presente, tornou-se um dos filósofos contemporâneos mais influentes e a sua vontade de renovar os projectos modernos é largamente partilhada. No entanto, será verdade que esta renovação impõe uma mudança do paradigma? Em que consiste a tal mudança e qual o seu preço? Renunciando à Filosofia do sujeito em proveito da comunicação e da intersubjectividade, não estaremos a correr o risco, como acredita Alain Renaut, de minar o fundamento da responsabilidade pessoal na qual repousa o Estado de direito? Então não seria preferível renovar o projecto moderno continuando no seio da filosofia do sujeito? A presente obra procura responder a estas questões, confrontando sistematicamente as duas estratégias de renovação do projecto moderno e pondo em evidência os desafios subjacentes aos diferentes paradigmas filosóficos e ao seu conflito.»
The Woman in The Window, névoa ao espelho P
by LN
Peep Show
by Ndrangheta
Duas moedas.
Dois euros.
Dois humanos.
Dois seres sexuados.
Três tarefas.
Em dois minutos.
Uma plataforma circular, a girar.
Uma cama.
Um vidro, a separar.
Mentira.
Rewind:
Dois não é o número.
Três é a conta que ali se fez.
1 casal + 1 curioso.
É essa a matemática.
Gélida.
Escaldante.
Quente-e-fria.
Dois euros.
Duas máquinas de carne-e-osso.
Um vidro.
Dois quase-quase-sexuados.
Dois quase-quase-assexuados.
Uma quase-quase-mulher
(A lançar libidosamente a lascívia pela ponta da língua).
Um quase-quase-homem
(Concentrado no rigor e no vigor).
Encaixados.
Como legos.
Dois minutos,
Três acções.
Três técnicas.
Carnalo-mecânicas.
Carnalo-profissionais.
(Quantas cabines ocupadas, ao lado?
Quantas erecções?
Solidões?
Quantas?)
Ao fim do clássico de 2 minutos,
O casal evapora-se, entre o vapor.
Lê-se em letras garrafais,
No vidro garrafal:
«Dank U.
Foste o melhor do peep show.
Tu foste O Peep Show!»
O curioso sai da cabine a sorrir.
De mãos nos bolsos.
Jono el Grande, Neo Dada
by LN
A descolonização do território Zappa/Beefheart é óbvia, especialmente o psicadélico retorcido, embora - e ainda - tudo em Neo Dada faça parte - o absurdo, o anticorpo, o choque, o estímulo sensorial inusitado, o desencontro, a harmonia alegórica, o mútuo... - do protocolo singular da música avant-garde e art-rock, desde 70. Mas em 2009, El Grande reflete, sem alguma vez ser vítima inocente de outras sobrevivências, indícios mais plurais: soa-nos a The Residents, Henry Cow ou Art Bears, Magma, Kronos Quartet pela elegância das cordas, o Zappa em modo improviso-latino, Idiot Flesh pela postura teatral, e mais gente dos 90 bem humorada como Mike Patton ou Trey Spruance, pelo bordado rock, étnico, e certas escolhas de risco non-sense, Gentle Giant a dar asas [space/prog-rock], e Sleepytime Gorilla Museum, o outro grande grupo à escala mundial de hoje, que se apropria das linguagens vanguardistas do rock, jazz e folk [R.I.O., Zeuhl, Free-Jazz, tudo o que é ácido...], para criar algo de visionário e divertido, porque os génios também riem. Da mescla para a instrumentação, o grupo instala-se num estágio híbrido, algures entre um ensemble clássico de música de câmara [e daí a referência a Kronos Quartet] e uma big band de jazz-rock improvisacional [Zappa, segunda parte].
Molhado, complexo, inventivo, verde cinza.
Para ouvir e entrar, porventura, no universo de Jono el Grande: «Tango on The Crest of Reality»; «Evas Horse Dance»;
Ralph Gibson
by LN
Para André Breton, lider filosófico do movimento de 1930, a ambiguidade era de suprema importância, evocando objectos, identidades e situações indefinidas, choque e absurdo. Dentro deste novo conceito inúmeros artistas foram nascendo, nas mais variadas expressões e técnicas, nomeadamente na fotografia. O número de praticantes desta última, aumentou incrivelmente desde a sua invenção, mas muito poucos conseguiram atingir reconhecimento mundial.
Ralph Gibson, fez uma trilogia dos seus livros sequenciais entre 1970 e 1974, que sugerem estados de espírito na tradição surrealista.
Podemos comparar a sua fotografia à escrita automática, onde símbolos ambíguos e uma tensão entre a moldura e a sequência servem para desorientar o público, elevando-o a um nível fora do alcance da visão programada do mundo. A metáfora, o fetiche e os objectos ambíguos empregados por si, são antigos mecanismos literários e visuais a que os surrealistas recorrem para sugerir os mistérios do inconsciente. A parábola, a alegoria e a fábula estão também entre eles.
Após uma breve pausa, Gibson regressou em 2008 e brindou os seus admiradores e amantes da fotografia em geral com uma colecção de nús, revelando com a sua peculiar perspectiva que o p&b será sempre uma expressão contemporânea. - Texto de Miguel Baganha [artestética]
Helmut Heissenbüttel
by LN
die Schwärze des Wassers und das Punktuelle der Lichter
die Schwärze des Wassers und das Gelegentliche der Reflexe
Gegenden und Gegenden und Landschaften
Landschaften die ich gefärbt habe und Landschaften die ich
.......nicht gefärbt habe
das Gelegentliche der Schatten und die Chromatik des Hellen
die Schwärze des Schwarzen und die Chromatik der hellen Flecke
gelb rot rotgelb und rot rot rot
Gegenden und Landschaften und oder
oder und oder oder
o negro da água e o pontilhado das luzes
o negro da água e o ocasional dos reflexos
regiões e regiões e paisagens
paisagens que eu tingi e paisagens que eu
.......não tingi
o ocasional das sombras e a cromática da claridade
o negro da negrura e a cromática da clara mancha
amarelo vermelho amarelho e vermelho vermelho
regiões e paisagens e ou
ou e ou ou
_____________________________
Tintenflecke fliehen rasch über das Konzept des Septemberabends
ein Miró von 1931 mit dem Titel Silence
der Springbrunnen der Schwalben ist unterwegs
die Schreibtischlampe löst keine Rätsel
vergeblich streckt der Miró seine Arme von Heidegger
.......bis Wittgenstein
das gelbe Regenlicht des Septemberabends klebt
.......an der Fensterscheibe
die gelben Arme des Septemberabends pressen mich an sich
das gelbe Septemberlicht des Regenabends schlägt lautlos ein
.......wie ein Geschoss aus Schweigen
manchas de tinta fogem céleres sobre o conceito
.......da tarde de setembro
um Miró de 1931 com o título Silence
o poço dos pássaros migratórios está em movimento
a lâmpada da escrivaninha resolve enigma nenhum
em vão Miró estica seus braços de Heidegger
.......a Wittgenstein
a amarelada luz pluvial da tarde de setembro cola-se
.......ao vidro da janela
os braços amarelados da tarde de setembro aconchegam
.......-me a si
a amarelada luz de setembro da tarde chuvosa golpeia
.......como um projétil de silêncio
_____________________________
im Regen der Oktobernacht 1954 wartet regungslos die
.......Fassade des Nimmerwiedersehens
über den abblätternden Gesichtern schweben die Bilderserien
.......der Eisenbahnfenster wie Wolken
es ist nicht wiedergekommen
Satzzeichen der untergegangenen Sonne
wie eine im Dunkeln verschwundene Kinderlaterne leuchtet
.......die Zeit
und auch die Geschichten die erzählt werden können sind
.......gestorben
es ist nicht wiedergekommen
.......do nuncamaisver
sobre os rostos desfolhados flutuam sequências fotográficas
.......das janelas dos trens como nuvens
não houve retorno
sinais de pontuação do sol posto
como uma lanterna infantil sumida na escuridão brilha
.......o tempo
e mesmo as histórias passíveis de narração
.......faleceram
não houve retorno
müde von der Grimasse des Sichvorzeigens
unerreichbar im Karussell der wiederkehrenden Gelegenheiten
benachbart dem Geräusch der Bahnhöfe
jenseits der möglichen Abschiede
unerkannt in der Verbindlichkeit menschlichen Verkehrs
vergänglich in der Hoffnung des Wiedersehens
hypothetisch vorhanden
weil der Versuch die einzige Gewähr ist
weil der Versuch die einzige Beweis ist
cansado da bocarra do presentar-se a si
inalcançável no carrossel das ocasiões recorrentes
avizinhado aos ruídos das ferrovias
além dos adeuses possíveis
irreconhecível na conectividade das relações humanas
passageiro na esperança do rever
de existência hipotética
porque a tentativa é a única garantia
porque a tentativa é a única prova
Revista Modo de Usar & Co.
«A NASA não teve em conta o impacto emocional de chegar à Lua»
by LN
O primeiro ser humano que pisou a Lua, a par de Neil Armstrong, acabou por viver a sua verdadeira odisseia na Terra. Buzz Aldrin revela as dificuldades pessoais que teve de ultrapassar para se converter no brilhante defensor da exploração espacial que é actualmente.
No entanto, Buzz sempre teve dificuldade em traduzir por palavras a importância do momento. «As pessoas querem saber o que senti», explica. «Como militares, era suposto não manifestarmos as nossas emoções. O meu coração batia a mil à hora, mas também tinha consciência de que devia manter a compostura. Estava a viver algo para que me tinha treinado. Pretendíamos controlar esses instantes do modo mais calmo possível e desempenhar da melhor forma a tarefa de que tínhamos sido incumbidos. Posso parecer enfadonho, mas o que fizemos foi extraordinário. No regresso, queria dizer algo de profundo nos discursos, mas eu era um engenheiro, não um poeta. Não encontrava as palavras adequadas.» Todavia, a descrição que fez da Lua como sendo uma «magnífica desolação» é uma das mais citadas nos textos sobre exploração espacial. Estamos num simpósio do MIT para celebrar o 40º aniversário da façanha da Apollo 11. Além do curso para piloto da Força Aérea que completou na Academia Militar de West Point, Aldrin (cujas irmãs mais novas o designavam por Buzzer, zombido) doutorou-se em astronáutica no MIT. Especializou-se nos encontros em órbita entre duas naves espaciais, o que lhe valeu a alcunha de «Dr. Rendezvous», «por vezes dita com respeito; outras, com ironia», recorda. A revista Life descreveu-o, na altura, como «a melhor mente científica no Espaço».
Nesta data, o MIT assiste a um desfile de luminárias daqueles dias lunares, incluindo Neil Armstrong, que vive em reclusão quase total na sua quinta do Ohio, e Jack Schmitt, da Apollo 17 (1972), um carismático astronauta-geólogo que também já foi senador. Porém, as pessoas gravitam em redor de Buzz, que fala cordialmente, com o seu novo livro na mão. Título? Magnífica Desolação. «Como estávamos na Lua, perdemos obviamente o espectáculo na Terra», diz, maliciosamente. «Claro que, durante a quarentena [Aldrin, Armstrong e outro colega, Mike Collins, estiveram 21 dias enclausurados num habitáculo devido à possibilidade de serem portadores de agentes patrogénicos], o show fomos nós. Parecíamos mais uma atracção circense do que um grupo de exploradores espaciais. Durante esse período, descobri que beber era a melhor forma de celebrar o momento culminante da minha carreira. Assim, quando ninguém estava a prestar atenção, deitava a mão ao whisky que o médico guardava na farmácia. Depois, percorremos o mundo durante dois anos. No início, era emocionante e divertido; as pessoas acotovelavam-se para nos ver. Conhecemos o Papa, reis e rainhas, presidentes, primeiros-ministros e celebridades; chegámos a dormir na Casa Branca. Porém, dois anos é muito tempo para negligenciar a família e causa uma fadiga enorme. Estávamos ansiosos por regressar e colaborar nas missões seguintes.»
É inevitável perguntar-lhe se ficou aborrecido por ser o segundo a sair da nave, depois de Armstrong. Sobretudo quando o apresentavam como tal («como se eu e o Mike fôssemos os comparsas de Elvis»), ou quando foi criado o célebre selo com a legenda Primeiro Homem na Lua. «Podiam ter escolhido Primeiros Homens... Além de ser extremamente competitivo, como qualquer astronauta, sempre pensei que o título de segundo era depreciativo; em vez disso, a imprensa devia ter-se referido a mim como membro da primeira missão a chegar à Lua. Ninguém parecia interessado em perguntar-me pormenores da missão, que ainda adoro recordar. Batiam sempre na mesma tecla: se fiquei aborrecido. Tenho de admitir que ir à Lua foi mais fácil do que aqueles dois anos de actos públicos. Tinhamo-nos transformado na face visível da NASA, mas a agência não dava atenção às nossas necessidades psicológicas. Não tomaram em consideração o impacto emocional que a fama instantânea teria, forçosamente, em homens que tinham passado a maior parte da sua existência adulta na cabina de um avião.»
A realidade abateu-se sobre Buzz Aldrin no dia em que terminou a digressão mundial. «E agora?», escreve em Magnífica Desolação. «O que faz uma pessoa que já alcançou o sonho da sua carreira? O que faz um homem, aos 39 anos, depois de ter caminhado sobre a Lua? Sabia que isso nunca se repetiria, e a NASA relegou-me a ser uma espécie de embaixador. Não podia trabalhar como astronauta. Além disso, o interesse público pelo Espaço começava a esmorecer. Já não estava submetido a uma disciplina rígida e, pela primeira vez na vida, não tinha uma meta. Sem me aperceber, comecei a beber a sério. Isso agravou a minha depressão crónica; havia dias em que não encontrava razão para sair da cama. Alguma coisa dentro de mim estava a desmoronar-se.» Na década de 1970, o esgotamento nervoso arruinou-lhe o casamento, a carteira e a auto-estima. De cada vez que algo não corria como esperava, mergulhava numa melancolia «improdutiva», recusando-se a fazer seja o que for, menos deixar a garrafa de Jack Daniel's. Um exército de psiquiatras conseguiu que começasse a enfrentar, pouco a pouco, os seus medos: o avô tinha-se morto com um tiro na cabeça e a mãe (que se chamava, curiosamente, Marion Moon) suicidou-se com comprimidos para dormir. Não conseguira lidar com a fama do filho nem com a força destrutiva dos seus genes. «Serei eu a seguir?», perguntou, um dia, ao psiquiatra. «Está a pensar suicidar-se?», interrogou o médico. «Não creio», respondeu Aldrin. «Como sabe?» «Não conseguiria matar-me; nem sequer sou capaz de decidir como fazê-lo.»
Finalmente deixou a NASA e voltou a trabalhar na Força Aérea, mas o seu papel como comandante da escola de pilotos da Base Edwards, na Califórnia, terminou como a destruição de dois jactos T-38 (os pilotos sobreviveram), que voavam sem a supervisão adequada. «A verdadeira causa do fracasso foi que, no início dos anos 70, admitir que se precisava de ajuda por sofrer de uma doença mental ou de alcoolismo era uma punhalada mortal na carreira militar e um murro na vida social.» Aldrin acabou a vender Cadillacs em Beverly Hills, embora preferisse falar de motores espaciais com clientes. «Estava no fundo do poço», escreve. «A bebida tinha-me encurralado. Deixei a minha segunda mulher, sofri um acidente de carro, fui preso por embriaguez, deixei fugir várias oportunidades para publicar um livro e perdi a confiança das organizações para as quais exercia funções de consultor. O psicólogo Carl Jung tinha escrito algo que se adaptava a mim: os voos espaciais não passam de um escape, uma fuga, pois é mais fácil ir a Marte ou à Lua do que conhecer-se a si próprio. Sou testemunha disso.»
Em meados dos anos 80, o héroi em desgraça voltou a erguer a cabeça. Conseguiu sair do poço ao participar em reuniões dos Alcoólicos Anónimos (AA) e ao escrever o seu primeiro livro, Regresso à Terra. «Quando percebi que um héroi também podia ser vulnerável à depressão e à bebida e que, embora todos me tratassem como um super-homem, não era necessário que procurasse sê-lo, comecei a curar-me. Compreendi que sempre me tinha visto a mim próprio como o centro do mundo, e que as pessoas, fosse pela fama ou pela minha inteligência, me deixavam levar a minha avante. Nessa altura, vi-me a mim próprio com olhos de ver: um tipo normal com problemas, como os meus companheiros do AA. Bebi o meu último copo em Outubro de 1978.» Tendo adoptado plenamente o lema-oração daquela associação («Concedei-me, Senhor, serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras»), Aldrin voltou a casar. Eis como define Lois, a sua mulher: «Uma pequena e dinâmica loura platinada que me salvou a vida.»
Não foi uma coincidência o simpático personagem Buzz Lightyear, do filme Toy Story, ter sido baptizado em sua honra, pois ambos partilham a mesma paixão sem limites pela exploração espacial. A cruzada a que se dedica desde então tem por objectivo renovar o interesse dos norte-americanos pelo Espaço. Guiado por essa motivação, apresentou à NASA um projecto para facilitar as viagens entre a Terra e a Lua, ou entre a Terra e Marte: uma enorme nave espacial (o Aldrin Cycler) que possa ser utilizado como «autocarro» entre planetas. «Essa nave, que teria capacidade para transportar 50 ou mais astronautas, viajaria num perpétuo ciclo orbital entre a Terra e Marte, deixando e recolhendo passageiros e objectos em pequenos veículos. Transportar grandes grupos reduziria os custos de lançamento de forma acentuada. Além disso, poder-se-ia usar foguetes reutilizáveis no regresso.» Aldrin tem outras sugestões para ressuscitar o interesse pela aventura espacial. «Defendi, e continuo a apoiar, a ideia de levar artistas, escritores, músicos ou poetas a viajar para longe da Terra, de proporcionar-lhes uma experiência directa. O cantor e compositor John Denver, que é meu amigo, queria ir, e penso que a NASA perdeu uma oportunidade de ouro quando rejeitou o seu pedido. Não há nada como uma canção ou um filme para chegar a muita gente.» Por isso, mantém laços de amizade com James Cameron, Ron Howard e Tom Hanks, todos astronautas frustrados.
Buzz vai mais longe: «São as pessoas vulgares que devem ir ao Espaço. A forma de fazê-lo é lançar uma espécie de lotaria cujo primeiro prémio fosse a viagem. Há dez anos que a minha fundação, a ShareSpace, tenta concretizar esse projecto. Acredito também no que estão a fazer Burt Rutan e Sir Richard Branson com o lançamento do magnífico veículo suborbital SpaceShip Two. Envolver o sector comercial é o caminho para as estrelas. Desde que o vaivém começou a voar, mais de cem lugares viajaram sem ocupantes. Se tivéssemos imitado os russos e vendido cada lugar a 20 milhões de dólares, o nosso programa espacial teria arrecadado mai de 2000 milhões de dólares. E porque não fazer uma reality show, uma espécie de Operação Astronauta?» Quando se lhe pergunta a opinião sobre o rumo que o programa espacial dos Estados Unidos está a tomar, Aldrin muda de tom. «Os solavancos nas prioridades da NASA não são nada de novo, e são quase sempre um assunto delicado. Qualquer mudança de planos que não tenha êxito traduz-se em anos de atraso. Por exemplo, a transição das missões Apollo para o vaivém espacial. As viagens à Lua tiveram por sucesso o Skylab, uma enorme estação orbital. Devíamos prosseguir nessa direcção, em vez de apostar em algo tão complexo, dispendioso e insatisfatório como os vaivéns. É verdade que levaram a cabo tarefas importantes, como instalar o telescópio Hubble e montar a Estação Espacial Internacional, mas representaram um desvio do que deve ser a exploração norte-americana no Espaço.»
«A opção pelos foguetes Ares I e Ares V, dois veículos para transportar tripulação e carga em separado, afasta-se do plano original, que era utilizar derivados do vaivém», critica Aldrin no seu último livro. «Entristece-me que a nossa nação tenha ficado para trás na corrida espacial. Há anos que venho a sugerir que se adie a retirada dos vaivéns [a NASA tinha previsto reformá-los, em princípio, em 2010], deixando um de reserva para trabalhar em anos alternados e mantendo outro atracado na Estação Espacial Internacional como parte integrante da estrutura. Hoje, contamos com a tecnologia necessária para evitar outra paragem na exploração espacial, mas isso só será possível se a NASA se juntar a empresas aeroespaciais comerciais que já estão a desenvolver os seus próprios veículos.»
Artigo publicado na Revista Super Interessante, Nº 139
Pós-porno
by LN
Com a massificação do vídeo, certos realizadores deixaram de acreditar na indústria por acharem que outros, acomodados, estavam a denegrir o género e mensagem com filmes imediatos, sujo simples, num espaço que poderia ser altamente criativo, com gelo, e estimulante. A partir daí tudo foi por água abaixo. O pornográfico passa aos círculos alternativos, decadente e simples ordinário, e os que têm encorporado o objectivo mainstream servem-se da mesma premissa: mostrar, mostrar, mostrar, sem imaginação, luz, tesão. Um papel é um costume, subalterno. A internet serviu, posteriormente, para alargar ainda mais o nível de perversão inócua, especialmente com a pornografia amadora. No fundo, os realizadores sabem quem têm: os maiores consumidores são homens, e porno de homem é, basicamente, penetrações e ejaculações, enquanto que a mulher dá maior importância ao trato da intimidade na relação.
Por vezes tenho a impressão que exageras, mas é assim a vida: única
by LN
Poet, singer, artist, bicycle race commentator, essayist, actor, drinker. An artist who miraculously embodies the romance of the vagabond poet, a rarity in an age where our very freedom means we have forgotten how to live.
E se na cultura ocidental merecem menção vários autores/compositores, de várias épocas e géneros, que pela voz metafísica, confessional por excelência, moldam e regeneram amiúde os conceitos de teatro na música, não o sendo um nem outro; no Japão, Tomokawa é o nobre - prolífero - de serviço, já desde os anos 70. O estilo anguloso que propõe constantemente à condição a assumpção de um novo estatuto, de Tomokawa, é como uma jornada, ferverosa, pelas sinuosidades do espírito, a desventura do carácter, a tragédia dos afectos. Ao longo dos anos tem vindo a texturizar a sua musicalidade e interpretação, dos ambientes sonoros característicos do folk, ou acid folk, mais livre e sem condição plástica [não raro a música psicadélica mete lá os pézinhos], para a emocionalidade da instrumentação clássica [violino, tuba, cello, metais, etc].
A reputação, obteve-a pela especificidade original da sua arte, a integração da sua obra em filmes de realizadores de culto japoneses, e por esta emoção destravada; a paixão, a delícia, o contágio e a possessão; esta poética do espectáculo, ele próprio, que o leva a partir uma corda de um instrumento inocente:
Admiro-o muito, enquanto intérprete e compositor, ouvi-lo atinge ali, num espaço primitivo onde o cognitivo colide com o emocional, uma proporção incalculavelmente forte, mas é impossível não tecer comparações entre a voz e as tentativas de arranque, numa manhã gelada, de um motor de uma carrinha Iveco - só para concluir aquele rastilho de humor cínico ali acima, tão meu.
Inakomono, Box [2003], Sora No Sakana, Itsuka Tooku O Miteita, são alguns dos álbuns-chave.
Site Oficial, onde entre outras essenciais informações, também são disponibilizadas pinturas.
Ganzas temperamentais
by Ndrangheta
O corpo espacejado
by LN
Ia-se de dia para dia espacejando.
A sua carne exercia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía.
Ele mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pequena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de novo a funcionar.
Resolveu então plastificar-se.
Principiou pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés, mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intestinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído aterrador.
Luís Miguel Nava (1957 - 1995)
Imagem: Sónia Cristina Carvalho
A ordem da infinidade
by LN
Um exemplo notável deste processo pode ser observado na obra Double Negative [1969], de Michael Heizer: a partir do deslocamento de 240 toneladas de terra, no deserto do Nevada (EUA), o artista trabalha a percepção do deslocamento como o objecto para a obra de arte. Estabelece um jogo de dados concretos entre o vazio do plano e linha do horizonte [o deserto, ao fundo], com o vazio profundo e a linha interrompida/vertical [o buraco], remodelando, de novo, entre situações de um dismórfico corporal no espaço, a polémica questão da relação de hereditariedade do meio-ambiente com o congelamento gráfico, sendo os temas organizados em torno deste último, porque é susceptível de ser modificado, não vítima do processo-molde temporal e humano. O jogo é duplicado então, como um romance Wildeano, através da poética semântica, com um jogo entre o que está fora do alcance do espaço comum do espectador e o documento, a fotografia, exposta na galeria. Qual peça de teatro do absurdo que encontra, numa realidade virtual e paralela escondida já num histórico que se pretende analítico, a desmentira de todos os elementos, toda a operação, ainda num sentido desconstrutivista do olhar, desmaterializa a própria galeria e desvirtua o seu espírito, que nunca expõe a obra; antes, o documento fotográfico que não é, neste caso, um dado original, mas um veículo, simultaneamente reprodutor e metafórico, para o invisível: da obra per si. A obra de arte não é, assim, nem a foto, nem o local escavado: é a situação perceptiva do deslocamento.
E está encontrado aquele que é, obviamente, o álbum rock do ano
by LN
São uma banda que evolui, estímulo sob estímulo, e que altíssimos destinos anseia: são poetas. Do rock psicadélico, dos estrídulos graves em confronto com uma aversa experimentalidade que pode tanto provir do kraut alemão como das mais profundas raízes norte-americanas: o blues e o folk. O décimo álbum de estúdio é abadessado. Não dá satisfações ao majestoso, mas experimenta com o que lhe apetece da forma mais iluminada que podemos encontrar na obra da banda. Posições, cargas, ideias eloquentes, conversões de marchas no sistema genético das bandas mais azuis e/ou psicadélicas da música heavy de 60/70: Blue Cheer, MC5, Deep Purple (...). Avançamos no tempo e esbarrámos, ao ler as recurvas intelectualizadas punk, os Sonic Youth e o stoner rock de Palm Desert, lá pelos versos marejados de todas as afinações mais graves, com dor e contra-estética. Mais um pouco, e completamo-nos com a boa ventura, sempre esquisita e sem pudor algum de tornar matéria o que quer que seja, dos Butthole Surfers. E talvez por isso, os Oneida com Rated O, álbum vicioso doutros céus, consigam, com desembaraço, representar, sem motivos nem paleio atoucinhado, poéticas tão distantes como a acidez techno de uns Prodigy, simultaneamente a ausência do no wave e a experimentalidade severa dos power electronics de uns Voice Crack, a letargia do drone mais atmosférico de gélidas mentes, ou a condução por erro do avant-garde jazz de Circle. À volta de cada, e qual alferes de milícias intendente, tudo aplaude.
Provavelmente a pérola da temporada
by LN
Trailer
Os barcos [Crónica de uma barqueira pós-moderna]
by Ndrangheta
Às portas do Douro, disseram-me que, de moliceiro, ali não poderia entrar.
Tentei navegar de rabelo no Mondego.
Mas que raio de ideia fui eu ter!
Um «não» em jeito de estalada tradicionalista: «não venha cá promiscuir o puro vernáculo».
Às tantas, perguntei eu:
«Então, não estamos na época cristalina da livre circulação de pessoas e bens?»
Responderam-me:
«Sim, mas há que separar as águas. Percebe?».
E eu ripostei:
«Então, e as embarcações de recreio e turismo não típicas? Podem navegar em qualquer rio?».
Resposta: «Ah, essas são neutras e são para o bem do progresso».
E lá tive eu, sentindo a injustiça e a incompreensibilidade sibilante sobre os ombros, que portar cada barco às costas, para o seu respectivo habitat natural, e engolir em seco.
El Niño Pez, a conquista da maturidade
by LN
Na procura de uma perfeição poética, El Niño Pez [2009] defini-se, qual autómato, pelo realismo mágico, à volta de um Almodóvar, um Pablo Trapero necessário, um personagem de Garcia Marquez ou, mais parentoriamente e, pois, na imagem cinematográfica que transporta uma mensagem idílica e onírica, Julio Medem - Los Amantes del Círculo Polar [1998]. A segunda longa-metragem da realizadora [isto é importante, pela ética e forma de ver e sentir, de uma mulher artista e de língua espanhola], vai directo à fenda: homossexualidade. Feminina. Mas este corte, para quem conhece o temperamento de XXY, sabe que não é sarado por demagogias políticas, comunhões-artifício, lutas sociais ou pelo pensamento. As figuras do cinema de Puenzo estão para lá do mágico, numa bolha, imunes e com um estranho sentido de conforto, em comunhão com a Terra e a água. Da fábula do sentir. E sentir bem, longe de pieguices e xaropadas que inundam o universo-marasmo do blockbuster, sem deixar, no entanto, cair o filme na pura fantasia, deslumbre ou beleza snob, de quem troca uma assinatura por um beijo.
Mais do que qualquer outro, o cinema de Puenzo é prepotente e desperto: as diversidades culturais são o seu epicentro, próprio da cultura mestiça das Américas; a diferença [rebeldia], a perda de valores, são réplicas naturais, não só da cultura, como do tema e da conquista da maturidade que persegue, com milícia, o sonho maior: amor.
- Dá-me um beijo para acabar.
- É um final feliz?
- Não sei.
- Inventa.
- Temos uma casa...
- E o lago...
- Sim.
- Até ao fundo.
O álbum do ano é este porque eu digo, é este porque eu quero
by LN
Os Andromeda Mega Express Orchestra são, por afectividade, uma orquestra multi-nacional, baseada em território germânico, dirigida por Daniel Glatzel. Para ficar a conhecer o conceito, as ideias que estão na base do projecto, nada melhor do que os próprios para o apresentar, neste excelente documentário:
«Radioactive People»
O último tabu: TER
by LN
O Trono da Virgem, Victor Lages; acrílico sobre tela, 2008
Vista sob este aspecto, efectivamente a situação dá-nos vontade de rir: toda a história da humanidade, ainda segundo o mesmo ponto de vista, nos parece ridícula. Esta obstinação, esta defesa a todo o custo, esta agressividade louca, demonstram que na virgindade existe, realmente, um conteúdo que transcende o seu valor anatómico e excede qualquer valor puramente moral. Assim, ela apresenta-se-nos com um significado mágico, como um tabu primitivo que desde há séculos a humanidade respeita, sobretudo entre conservadores e povos de costumes sagrados, embora hajam excepções. O tabu da virgindade não tem sido conservado por algumas populações sub-desenvolvidas, embora estas se encontrem em minoria. Entre os indígenas da Polinésia, por exemplo, não lhe é atribuído qualquer valor; já na Grécia antiga, em algumas regiões, nem sequer havia a preocupação de saber se uma rapariga era virgem ou não.
Retornado ao tema como tabu, entre os aborígenes da Austrália, por exemplo, é o feiticeiro ou grande sacerdote quem, todas as Primaveras, procede ao desfloramento das jovens virgens que, entretanto, atingiram a maturidade, e fá-lo com um instrumento em forma de punho de bastão que é um verdadeiro objecto sagrado. Basta pensar na nossa Idade Média, que durante séculos girou em redor da pequeníssima circunferência daquela região específica, subordinando-lhe os costumes, as artes, a literatura, etc. O jus prima noctis é um facto demasiado conhecido para que valha a pena recordá-lo. No fundo, o nobre prepotente da comédia de Lope de Vega nada mais exigia do que esta espécie de tributo, que em tantas outras regiões, e durante tantos e tantos anos, podia ser exigido tranquilamente. Ainda hoje certas famílias sicilianas radicadas nos EUA costumam mandar aos parentes, que continuam em Itália, pedaços de tecido manchado pelo sangue das filhas desfloradas na primeira noite de núpcias. É todo um ritual que condiciona este gesto, e cujas origens se perdem nas trevas dos tempos mais remotos. É um sinal de posse, a determinação de um capital efectivo. Na realidade, durante a Renascença, a rapariga que servia de vítima destinada ao famoso «congresso jurídico» (prova pública que se efectuava com o fim de determinar o grau de virilidade de um príncipe) era, em seguida, recompensada com um conspícuo dote e convenientemente casada.
The American Astronaut, a gravidade de rir
by LN
Cory McAbee não precisou de um recurso milionário [só da teatralidade do musical, da acutilância do thriller, e a compulsividade de vários outros temperamentos] para criar, seguramente, um filme independente de importância central, nos anos 00's. The American Astronaut [2001] tem tudo o que necessita para uma aterragem segura: humor refinado, bem lá na soma entre o neutro psicológico e o deboche escarlate, qualidade estética, dramática e artística superlativa, imagens para a posterioridade (um salão social transformado em montes de pó...); uma ordem semântica, anti-arte, manifestamente extravagante. Essa intolerância perante as tendências opostas, rectilíneas para com o sonho e conquista do inexplorado pelo homem comum, resulta num comportamento simbólico, ideológico que, de per si, entrega a retórica visual a um certo hedonismo absurdo, afiado, onde se alimenta, no intertexto, a discórdia quanto à moral e temas antigos - as vênus do helenístico, a virgindade como tabu, o valor relativo da autoridade (...). A moral tem expressividade, não só características físicas. O tratamento da imagem, a preto e branco, é íntimo da educação ácida, psico-somática de Eraserhead [1977, Lynch]. Num plano segundo, pois falta-lhe a omnipresença, está Murnau e o Expressionismo Alemão, sempre que o estético adopta a função de traçar o subsconsciente no medonho embate luz-sombra; e Guy Maddin, na narco-análise do discurso narrativo. Celebração especial de um Maddin tardio, libidinoso e sofisticado que procura e habita, também, o binómio do cinema alemão do início do século XX, como o é em Cowards Bend the Knee or The Blue Hands [2003], ou The Saddest Music in the World, no mesmo ano.
Salla Tykkä, In Focus
by LN
A passagem da sala cinema à sala de exposição constitui certamente um dos aspectos mais interessantes da mostra, que reúne cinco obras da artista: Victoria (vídeo digital, 2009), a trilogia formada por Lasso, Thriller e Cave (35 mm/vídeo, 2000-2003), e o primeiro filme de Tykkä, Power (16mm/vídeo, 1999). Afirmando-se simultaneamente como curtas-metragens e como obras de arte contemporânea, os filmes de Tykkä suscitam inúmeras questões em torno duma interrogação principal: “O que é o cinema hoje?”. Será que o vemos na Galeria Solar continua a ser “cinema”? Se sim, de que “cinema” se trata? Dum cinema que “migrou” (como é agora costume dizer) das suas escuras salas de projecção em direcção às salas habitualmente mais luminosas dos museus e das galerias? Dum “pós-cinema” ou dum “para além” do cinema? Se os trabalhos de Tykkä se distinguem quase sempre pela combinação entre o recito autobiográfico e a reflexão sobre a condição feminina, a referência ao imaginário e ao dispositivo cinematográfico é constante, forçando o espectador a reflectir sobre esse complexo território de fronteira e de miscigenação que é o cinema, arte contemporânea. A incerteza identitária do trabalho de Tykkä, expressa tanto no plano teórico como no plano institucional (as suas obras foram mostradas no festival e na galeria), encontra-se resumida na pequena mas problemática vírgula que simultaneamente separa e aproxima os termos cinema e arte contemporânea.
No filme Power (o único exibido num monitor), Tykkä interpreta o personagem de uma lutadora de boxe que combate, torso nu, contra um lutador do sexo masculino. A jovem mulher parece simultaneamente vulnerável e forte, a visão do seu corpo sexuado ameaçando a superioridade aparente do seu oponente. A banda sonora de Power reutiliza dois excertos do filme Rocky (1976). Esta estratégia é, a par da ausência de diálogos, uma constante do trabalho da artista, sendo igualmente convocada na trilogia Cave (2000-2003). Se Power reflecte a relação edipiana de Tykkä com o seu pai (o filme começa com um cartão onde a artista afirma que pretendia realizar um filme sobre a sua mãe, mas que não conseguia deixar de pensar no seu pai), a trilogia parece explorar a passagem complexa da infância à idade adulta. Os três filmes evocam ainda determinadas convenções de género do cinema clássico, fazendo justiça a uma afirmação de Tykkä segundo a qual o cinema pode “ser parte da experiência pessoal e da memória e guiar a concepção que uma pessoa tem de si própria e do mundo”. Em Lasso, a referência é ao western, a banda sonora do filme retomando um excerto da célebre composição de Enio Morricone para Era uma vez no Oeste (1968). Já com Thriller somos confrontados, através da reutilização de excertos sonoros de Carrie (1976) e de Halloween (1978), ao universo dos filmes de terror e, com Cave, ao dos filmes de ficção científica.
Se estes três filmes enigmáticos se articulam invariavelmente em torno de personagens femininos, o mais recente Victoria constitui uma excepção à regra: documentando o florescer nocturno de um nenúfar gigante (Victoria Cruziana). A planta em questão, que floresce apenas uma vez, foi descoberta no começo do século XIX por exploradores britânicos, que lhe deram o nome da Rainha Vitória e a trouxeram para o Reino Unido (diz-se que as folhas do nenúfar gigante inspiraram a construção do célebre Crystal Palace). A música de Mahler contribui para a dramaturgia cuidada do filme: tal como na trilogia Cave, o espectador tem a sensação de testemunhar um acontecimento único ... e sempre profundamente enigmático. Diante as imagens cuidadas de Tykkä, as interrogações sucedem-se, digam elas respeito à natureza das imagens ou à beleza do mundo.» - AC
After The Apocalypse, super-nada
by LN
«After four years of cleaning high-rise windows in Tokyo, I quit my job in 1994 and went to Australia to hitchhike around the continent with a backpack and tent for six months. I spoke no English, knew nobody, belonged nowhere and felt like a ghost in the desert -- a person who just appeared out of nowhere with no past. But I realized I needed to survive wherever I was. I needed to find food, a place to sleep, have sex and make friends. I struggled because I couldn't speak the language, but I learned it is possible to connect with people in other ways -- through their eyes and their body language. That's what inspired me to make this film. After the Apocalypse is about universal communication and needs. It is a futuristic drama that shows how people discover one another beyond words.»
A partir daqui, é fácil intuir que se trata de um lugar novo, onde serão precisas restituir as bases de comunicação humana, para perpetuar a existência. Trata a matéria pelo símbolo, e instaura a imagem cinematográfica ali entre o carácter dramático do Novo Cinema Alemão e algo da poesia do filme francês, com término expressivo na linguagem de Bergman - nas últimas imagens, salta à memória Persona. Para além do técnico, envolto a preto e branco, é um exercício de meditação filosófica que veicula no espaço semântico o poder dos instintos e relações de sobrevivência. Último notável é o sonoro criado pela técnica do binaural que assume o espaço como parte integrante do sentido abstracto proporcionado pela música. Musicado por composições experimentais [combo: noise + free-jazz + musique concrète] de um imenso sentido de liberdade, do conterrâneo Hiro Ohta. [Myspace]
Site Oficial
Skeletonbreath
by LN
São [mais] um trio avant-garde, instrumental, com base na cena de Brooklyn, que assegura o momento, especialmente feliz, da nova música progressiva europeia e americana, e do new weird america, movimento norte-americano [dos finais de 90 para cá] que, entre outros tópicos de delicada extravagância, tem como verdadeiro mote a inclinação freak (olhem para o Devendra Banhart como prova), de atribuir na musicalidade, levado prêt-à-porter pela música folk e rock psicadélico dos anos 60/70, um sentido composicional livre, sem os restos do edifício poético ancestral, onde se influenciam sobremaneira. Estrearam-se em 2005 com Louise, álbum estridentemente bem recebido, e lançaram recentemente o segundo de longa-duração, Eagles Nest Devil's Cave. Importante é referir que são uma bateria, guitarra-baixo, e um violino - não menos o é o facto de acharem um lugar peculiar, e técnico, na sonoridade, com isto. Louise seria um álbum mais orgânico, atento aos cantos da música étnica, - campo de especialidade do avant-garde praticado pelos europeus Alamaailman Vasarat - açambarcando o imaginário da vaudeville, do cabaret circense [universo de cidadãos como os britânicos Tiger Lillies], delicado com a ordem semântica não raro propalada pela melodia e os ambientes específicos da música folk, e klezmer abstractizante, onde o engrandecimento pelo conjunto rock pouco sobressai.O princípio de tudo
by LN
Vejamos, camaradas: a pessoa mais famosa do Universo é produto da nossa imaginação. Deus é uma suposição, que transformada doutrina e segura pela ciência (tudo o é enquanto prova da realidade, única e material, do nominado) da fé, substitui-se através do «secalhar» por um cântico de louvor, do «talvez» por uma prece que haverá de cair não sei onde e do «mesmo assim» por um livro 'inspirado'. Criações, em suma. Tudo, pelo medo de existir no vácuo. No mundo, na vida sem perceber. Enquanto nele estamos, a arte (mundo do imaginário = imagens), o saber, diverte-nos, em plena ilusão quasi-catatónica. Deus é egoísta. Tentem, agora mesmo, ir para uma estação de comboios, onde a priori sabem que nunca haverá de passar algum. Não vos dou mais de 4 horas, mesmo na posse de informação concreta (o comboio nunca irá passar), para começarem a brincar com, por exemplo (daqui surge a experiência, poderia ser um outro motivo qualquer), uma pedra da calçada, Efeito natural da Causa suprema: o medo de existir sem compreender. Nulo imperfeito? Absoluto impossível? Não sei, nem quero saber, que hoje tenho o livre-arbítrio inflamado.









.jpg)



















.jpg)


.jpg)
.jpg)







